quarta-feira, 21 de setembro de 2011

RELAÇÃO ENTRE AS TEORIAS DA APRENDIZAGEM APLICADAS POR PIAGET E VYGOTSKY

Apresentação

O trabalho tem por objetivo apresentar as teorias da aprendizagem propostas pelo interacionista construtivista Jean Piaget que acredita que o homem é construidor do conhecimento, ou seja, transforma o objeto (ambiente), agindo diretamente sobre ele e, ao agir, também se modifica, pois o indivíduo é ativo e responsável pelo seu próprio conhecimento; e pelo sócio-interacionista Lev Semynovytch Vygotsky, relacionando-as de modo a compreendê-las em seu caráter social e sua aplicabilidade na questão educacional.

Considerações iniciais

Há várias formas de se conceber o desenvolvimento e a aprendizagem enquanto propriedades fundamentais do ser humano e há diferentes visões e explicações que podem ser adotadas para compreender como o sujeito aprende e se desenvolve.
Visto que a aprendizagem é uma constante procura do significado das coisas, a Teoria da Aprendizagem parte do pressuposto de que todos nós construimos a nossa própria concepção do mundo em que vivemos, a partir da reflexão sobre as nossas próprias experiências.
São muitos os estudos sobre a aprendizagem e, especialmente, sobre a classificação das diferentes concepções de aprendizagem em diversas teorias, também denominadas correntes epistemológicas, dentre eles Jean Piaget (em sua teoria, explica como o indivíduo, desde o seu nascimento, constrói o conhecimento) e Lev Semynovytch Vygotsky (em sua teoria, explica o desenvolvimento do indivíduo como resultado de um processo sócio-histórico, enfatizando o papel da linguagem e da aprendizagem nesse desenvolvimento, sendo ela considerada histórica-social) destacam-se na psicologia com a abordagem interacionista, de modo a compreender como cada uma delas encara o papel social, enquanto condição que facilita e determina a apropriação e superação do conhecimento socialmente disponível.

1- Concepção da aprendizagem segundo Piaget


Jean Piaget nasceu em Neuchâtel na Suíça francesa, dia 9 de agosto de 1896. Dezenove anos mais tarde, forma-se em Biologia pela Universidade de Neuchâtel muda-se para a França ingressando na Universidade de Paris trabalhando com testes de inteligência infantil. Em 1921 passa a fazer suas pesquisas no Instituto Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, destinado à formação de professores. Dois anos depois lança o seu primeiro livro: A Linguagem e o Pensamento da Criança, chegando a falecer em Genebra em 16 de setembro de 1980 aos 84 anos.
Sua formação em biologia levou-o a pressupor que os processos de conhecimento, poderiam depender dos mecanismos de equilíbrio orgânico, tanto nas ações externas como nos processos de pensamento implicando uma organização lógica. Busca assim, conjugar essas variáveis (lógica e biológica) numa única teoria apresentando uma solução para o problema do conhecimento humano. Daí a ideia de centralizar sua teoria na lógica de funcionamento mental da criança que é qualitativamente diferente da lógica adulta.
As observações piagetianas sobre o comportamento infantil trazem implicitamente, a hipótese da existência de estruturas específicas para cada função do organismo, assim como para o ato de conhecer. Acredita ainda que essas estruturas não apareçam prontas no organismo, mas sim da gênese que justifica o contraste entre a lógica infantil e a adulta.
Num modelo psicogenético, Piaget orienta sua teorização em estruturas cognitivas de dimensão lógico-formal, onde o indivíduo constrói e reconstrói continuamente as estruturas que o tornam cada vez mais apto ao equilíbrio. Afirmando que o importante para o desenvolvimento cognitivo da criança é o que nelas em geral pode ser transposto de uma pra outra. Essas construções seguem um padrão denominado por Piaget de estágios que seguem idades mais ou menos determinadas; sendo, o sensório-motor (do nascimento aos 2 anos), o pré-operacional (2 a 7 anos), o das operações concretas (7 a 12 anos) e o das operações formais (12 anos em diante). Cada período define um momento do desenvolvimento como um todo, ao longo do qual a criança constrói determinadas estruturas cognitivas, todavia, o importante é a ordem dos estágios e não levando em consideração rigidamente as idades.
No primeiro estágio (sensório-motor) Piaget destaca como principal conquista, o desenvolvimento da noção de permanência de objeto, a partir de reflexos neurológicos básicos, construindo esquemas de ação para assimilar mentalmente o meio; no pré-operatório o desenvolvimento da capacidade simbólica, egocentrismo, a fase dos "por quês"; com as operações concretas, a criança desenvolve noções de tempo, espaço, velocidade, ordem, casualidade, etc., já sendo capaz de organizar relacionando diferentes aspectos e abstraindo dados da realidade, socializando o modo de pensar o mundo com raciocínio indutivo; já no estágio das operações formais, as estruturas cognitivas da criança alcançam seu nível mais elevado de desenvolvimento, podendo agora distinguir o real do possível, possuindo a análise combinatória, a correlação buscando soluções a partir de hipóteses e o raciocínio proposicional.

2- Concepção da aprendizagem segundo Vygotsky


Nasceu em Orsha na Rússia Ocidental em 5 de novembro de 1896, e morreu de tuberculose em 11 de junho de 1934, aos 37 anos. Professor e pesquisador contemporâneo de Piaget dedicou-se nos campos da pedagogia e psicologia.
A teoria de Vygotsky considera o papel da instrução um fator positivo, no qual a criança aprende conceitos imprescindíveis socialmente adquiridos de experiências passadas, e passarão a trabalhar com essas situações de forma consciente. Um destes conceitos importantíssimos é o de Zona de desenvolvimento proximal, que se relaciona com a diferença entre o que a criança consegue aprender sozinha e aquilo que consegue aprender com a ajuda de um adulto. Construiu a sua teoria tendo por base o desenvolvimento do sujeito como resultado de um processo sócio-histórico, enfatizando o papel da linguagem e aprendizagem nesse desenvolvimento. Para Vygotsky, a construção do conhecimento se dá através da interação entre sujeitos conceituando que o sujeito não é apenas ativo, mas interativo. Ele estabelece três estágios na aquisição desses conceitos, onde o primeiro é o dos conceitos sincréticos, do psicológico que evolui em fases com escrita indecifrável; a fase da escrita pré-silábica, unigráfica, letras inventadas, letras convencionais; a fase da escrita silábica, as letras convencionais representam sílabas, não separando vogais e consoantes, nem distinguindo maiúsculo de minúsculo; a fase da escrita silábica alfabética, escrita caótica faltando letras; a fase da escrita alfabética conhecendo sonoridades, lendo e escrevendo. Quando Vygotsky fala sobre raízes genéticas de pensamento/linguagem discorre quatro estágios, sendo o primeiro o natural ou primitivo que é a fala pré-intelectual e pensamento pré-verbal; o segundo é o das experiências psicológicas ingênuas ocorrendo interação com o próprio corpo, com objetos e pessoas; o terceiro é o estágio dos signos exteriores onde há o acúmulo das experiências ingênuas; e por último o estágio de crescimento interior caracterizado pela interiorização das operações externas e quando a criança passa a possuir memória-lógica.
Vygotsky sempre enfatiza a questão do desenvolvimento do pensamento pelos instrumentos linguísticos e pela experiência sócio-cultural da criança. Nesta perspectiva, o pensamento está sujeito às leis que orientam a evolução da cultura humana a qual sempre sofrerá transformações.

3- Relação entre as teorias de Piaget e Vygotsky


Numa análise comparativa entre as teorias de ambos vemos que enquanto Piaget desenvolveu uma teoria construtivista dando um peso maior à natureza biológica do homem, para explicar os processos cognitivos e linguísticos, sempre fixando os estudos no desenvolvimento das estruturas lógicas; Vygotsky preocupou-se em desenvolver a teoria histórico-social com base no materialismo marxista dando prioridade à dimensão histórica e social da vida dos homens cristalizada em seus sistemas linguísticos, entendendo a relação do pensamento com a linguagem, e suas implicações no processo de desenvolvimento.
Para Piaget a aprendizagem depende do estágio de desenvolvimento atingido pelo sujeito, a maturação o que determina o ritmo desse aprendizado, o amadurecimento o que busca o aprendizado e o conhecimento uma construção individual que se dá a partir da ação do sujeito sobre a realidade; já para Vygotsky que enxerga a aprendizagem favorecendo o desenvolvimento das funções mentais, o aprendizado influencia o ritmo da maturação que depende fundamentalmente das influencias ativas do meio social, ao contrário de Piaget, considera o aprendizado o agente que traz o amadurecimento e o conhecimento interativo alencado ao coletivo. Piaget acredita que os conhecimentos são elaborados espontaneamente pela criança, de acordo com o estágio de desenvolvimento em que se encontrar. A visão que as crianças mantêm sobre o mundo vai progressivamente, aproximando-se das dos adultos tornando-a socializada; Vygotsky discorda de que a construção do conhecimento proceda do individual para o social, pois a seu entender, a criança já nasce num mundo social e, desde o nascimento, vai formando uma visão desse mundo através da interação com adultos ou crianças mais experientes.
Segundo Piaget, a formação do pensamento depende da coordenação dos esquemas sensorimotores e não da linguagem. Esta só pode ocorrer depois que a criança já alcançou um determinado nível de habilidades mentais; já para Vygotsky, pensamento e linguagem são processos interdependentes, desde o início da vida. A linguagem sistematiza a experiência direta das crianças e por isso adquire uma função central no desenvolvimento cognitivo, reorganizando os processos que estão em andamento.
Vygotsky e Piaget avaliaram as forças individuais e sociais em desenvolvimento relacionando o social-individual, mas é o primeiro quem dá ênfase ao social, dando a ele um papel específico no desenvolvimento. Contrapondo Piaget que diz que as relações sociais são secundárias à natureza biológica da criança e a considera ser anti-social, Vygotsky coloca uma concepção bastante diferente da criança, onde afirma que mecanismos naturais governam o comportamento da criança, porém, antes de 2 anos de idade, a criança participa das relações sociais considerando-a indivíduo social desde o começo.
Trabalhavam nas mesmas vertentes teóricas. Eram contrários ao Behaviorismo, a começar dos experimentos que eram realizados em animais e não analisavam crianças como esses teóricos propunham; interessando-se nos processos de construção da razão, e capacidade de argumentação lógica (psico e sócio-genéticos). Valorizavam a interação do indivíduo com o ambiente, vendo-o como sujeito que atua no processo de seu próprio desenvolvimento e na atribuição de significado ao conhecimento, apesar das diferenças quanto à ênfase que eles atribuem aos fatores sociais e culturais na aprendizagem. É possível afirmar que tanto Piaget como Vygotsky concebem a criança como um ser ativo, atento, que constantemente cria hipóteses sobre o seu ambiente.

Considerações finais


Na perspectiva interacionista de Vygotsky e Piaget o papel social vive em constantes alterações referentes ao desenvolvimento e aprendizagem, a iniciar das concepções dos estudiosos, que enquanto o primeiro referia-se ao meio social como sendo o contexto das relações homem-natureza, o outro visava à formação do pensamento disvinculada a aquisição linguística como se uma fosse independente da outra.
O intuito de apresentação das teorias dos estudiosos é justamente o de cunho comparativo para a Psicologia da Educação, pois neste sentido faz-nos educadores que possui alternativas para a aplicação pedagógica, fazendo-nos refletir psicologicamente com o comprometimento da construção de uma nova sociedade.


Referências

REGO, Tereza Cristina. Vygotsky - Uma perspectiva histórico-cultural da educação. Petrópolis : Vozes, 2004.
KAMI, Constance. Piaget para a educação pré-escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.
PALANGA, Isilda Campaner. Desenvolvimento e aprendizagem em Piaget e Vygotsky – a relevância social. São Paulo, 1998.

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